Cadê o tesão que estava aqui?

Sexo importa (pelo menos para todos fora da área da assexualidade), não adianta fingir o contrário. Porém, para muito além de tudo isso, o que importa ainda mais é a forma como lidamos com o sexo. E, nessa parte, não estamos indo muito bem de um modo geral. Não sabemos lidar com praticamente nada que envolva nossa sexualidade. E no que isso resulta? Pessoas sexualmente ativas, mas extremamente frustradas. Se ainda formos colocar uma lupa nos recortes de gênero, vemos que nós, mulheres, crescemos ouvindo “não faça sexo, isso é pecado” ou “você não é um ser sexual, isso não é coisa de menina”, mas se entramos num relacionamento sério na vida adulta (e heterossexual, pois a conversa sempre foi a mais heteronormativa possível) tudo dá uma virada de 360 graus e se tranforma em “você precisa segurar seu homem com sexo, seja santa na rua e puta na cama”. Já os meninos sempre tiveram o direito de serem sexuais, porém sem nenhuma educação real sobre consentimento ou prazer. Essa conta simplesmente não fecha e também nos leva às quantidades absurdas de casais infelizes com suas vidas sexuais.

Mas e aí? O que fazer numa relação onde o toque se perdeu? Onde o carinho não só sexual, mas geral, não encontra mais o corpo do outro? Nesses casos, a gente reaprende a se relacionar. E eu digo isso porque não é só a educação sexual que falta, mas também o entendimento sobre inteligência afetiva e emocional. Uma relação em que falta sexo também pode significar a falta do diálogo, do acolhimento, da preocupação com sua parceria e o acúmulo de coisas mal resolvidas. Por isso, separei tópicos importantes para olhar quando as coisas estão frias, quase congelando:

Frequência: expectativa x realidade

Primeiro, não existe uma única frequência sexual ideal para todo mundo. Alguns casais vão sentir mais necessidade de momentos quentes, outros nem tanto, e isso vai variando ao longo do tempo da relação. Sim, é absolutamente normal fazer menos sexo conforme os anos vão passando. Por que? Porque humanos são condicionados a se animarem mais com novidades. Mas não só isso. Se nos condicionarmos a longos períodos de paixão e fogo fulminante, nossa vida social, profissional, e senso de comunidade vão pro ralo. Uma pesquisa inglesa com mais de 5 mil casais constatou que essa fase mais ativa sexualmente, também chamada de “fase da lua de mel”, pode durar até dois anos e meio. A ciência por trás dessa constatação explica que, geralmente, no início das paixões, nosso cérebro libera neurotransmissores positivos como ocitocina, o queridinho “hormônio do amor”, e inibe o cortisol, conhecido por “hormônio do stress”. Porém o tempo, a rotina e os desafios da vida adulta são especialistas em nos fazer distrair um dos outros e, principalmente, nos distrair de nós mesmos. Então, depois de respirar aliviado por saber que é normal diminuir o ritmo e que não devemos nos comparar com os outros, porque não existe frequência sexual certa ou errada, voltamos a olhar pra dentro, pois só assim conseguimos enxergar melhor o outro.

Individualidade sexual

E por falar em voltar pra si, uma coisa que mata qualquer saúde na vida sexual é perder sua individualidade e autonomia só porque está com mais alguém. Quantas vezes já ouvi coisas como “não preciso me masturbar, tenho marido” ou “peguei meu parceiro se masturbando e me senti traída” e fiquei triste por ver como essa narrativa retira completamente a possibilidade do autoconhecimento e autoamor mais puro que podemos ter. Momentos de prazer solo são importantes pra nos entendermos, saber dos estímulos sexuais que gostamos ou não, melhorar a autoestima, ajudar a conhecer nossos limites pra saber comunicá-los sempre que necessário, enfim, a lista de benefícios é praticamente infinita. Esse é um outro tipo de experiência, onde podemos acessar um olhar muito específico e pessoal para o toque, já que sempre vai ser diferente de um sexo oral, uma penetração ou até da troca de carícias. E não existe hierarquia dos estímulos: são apenas momentos e sensações diferentes. O leque do prazer deve ser aberto para todos, sem a crença limitante de que ter uma boa relação consigo inibe as relações com os outros. Fora que a pessoa com quem nos relacionamos não ganha um manual de instruções nosso ou uma bola de cristal pra adivinhar nossas vontades. Então, só a autoinvestigação pode facilitar essa comunicação, além de criar uma vida mais prazerosa. Quanto mais temos orgasmos, mais queremos ter, e o que eles liberam? A amada ocitocina. Então, mesmo que a gente decida começar sozinhos, num momento mais íntimo, ter essa relação saudável com o toque vai acabar atraindo a vontade de continuar desbravando essas delícias com a companhia da pessoa amada.

Prazer como aprendizado

O que não nos contam, mas deveriam, é que prazer é algo que se aprende com prática, persistência e paciência. Não é algo que simplesmente “vem” ou cai do céu como um milagre, ainda mais numa sociedade que diz que o prazer não deve ser vivido ou, no máximo, pode vir depois de experienciar a dor e o sacrifício. Repito: prazer se aprende. E qualquer pessoa pode alcançá-lo. Ter química é maravilhoso, porém se comprometer a manter o interesse é um trabalho importantíssimo. Cada um vai ter sua própria jornada na busca por uma vida mais prazerosa, mas alternativas como adicionar os momentos íntimos gostosos no calendário ou testar exercícios focados do autoconhecimento das próprias potências sexuais são muito válidas para construir esse caminho. Por isso, a persistência e paciência não devem sair de cena, mesmo quando a preguiça bater. Confie em mim: esse investimento de tempo e cuidado em você vai valer muito a pena.

Qualidade afetiva e sexual

Então, vocês se veem sem fazer sexo há muito tempo – ou pelo menos tempo suficiente para trazer incômodo e estranheza. Mas como era a qualidade sexual antes desse hiato? A experiência era 100% satisfatória? Nosso cérebro possui um sistema de recompensa que é mais simples do que imaginamos: Se colocamos muito esforço em algo e o retorno é pouco ou nada compensatório, recebemos a informação de que não vale a pena seguir por aquele caminho. Às vezes, mais importante do que saber o que te excita, é saber o que derruba completamente a sua vontade. Assim, podemos seguir descobrindo o que o corpo responde positivamente (porque isso vai variando ao longo da vida), e nos atentar para afastar tudo aquilo que não for legal e que já sabemos que não funciona. A cobrança por mais sexo acaba trazendo stress e piorando a situação? Então, é hora de conversar sobre mudar essa abordagem. As tentativas de reaproximação terminaram de maneira frustrada? Hora de recalcular as expectativas e as cobranças que um pode acabar depositando no outro.

Necessidade de contato

O ser humano precisa de contato para se desenvolver bem. Isso é um fato científico e a pandemia fez questão de jogar na nossa cara essa necessidade. Por isso é tão importante manter os afagos, beijos e carinhos. Casais que se beijam todos os dias permanecem mais unidos – inclusive, uma pesquisa feita pela Universidade de Oxford em 2013 constatou que a maioria das pessoas acha o beijo mais importante que o sexo na relação. Mas por que tantos casais deixam de se curtir de uma maneira mais despretensiosa? Porque a maioria condiciona qualquer toque ao ato sexual, desse jeito muita gente nem começa o carinho por receio de ter que terminar transando naquele momento. É importante saber que não temos que nada, não somos obrigados a nada, e mesmo se começamos algo, temos todo direito de mudar de ideia. Se nos acariciamos pelo simples prazer da troca de contato, ganhamos o cuidado misturado com a intimidade, sem o peso de um roteiro pré-determinado e passos calculados nesses momentos. Por isso usem muito das massagens, cafunés, beijos de cinema, conchinhas, amassos e tudo mais que vocês têm direito, sem achar que esses atos devem ser um tipo de “preliminar”. Se o sexo vier, pode ser uma consequência e tudo bem, mas ele não deve ser colocado como meta final desse afeto diário.

Atenção e escuta

É bem comum que antes do fim das atividades sexuais numa relação também acabem perguntas atenciosas como “seu dia foi bom?”, “faz tempo que não sei da sua família, eles estão bem?”, “estou indo ao mercado, quer que eu traga aquele chocolate que você gosta?”. Atenção é sexy, e também é uma forma de demonstrar interesse e respeito. Tudo isso faz com que a conexão dos dois se mantenha mais forte e duradoura, o que consequentemente reflete na intimidade. Então, para além de manter o contato físico, estimular a troca afetiva e intelectual é um trabalho de cuidado que diz muito sobre o amor. Escutar é a maneira mais próxima que temos de entender o que a nossa parceria está passando – se ela está em luto, sentindo dores de traumas passados, se está exausta, confusa, empolgada, com vontade de viver novas coisas na vida sexual etc.. Só com a escuta se consegue construir junto um caminho sem que haja invasão do espaço e limites do outro.

Paixão e amor tranquilo

Quem aqui já achou que o sexo no relacionamento deve ser sempre como se mostra nos filmes? Com duas pessoas entrando pela casa, se beijando e esbarrando em tudo, quebrando móveis à la Sr. e Sra. Smith? Que sexo após briga é melhor? Que o amor tranquilo é entediante ou não ardente o suficiente? Bom, é comum ir para esse lugar do pensamento. Como já falei mais acima, o prazer nos foi permitido desde que viesse após o sacrifício, logo, se avistamos um relacionamento calmo e prazeroso, podemos nos pegar pensando que existe algo de errado ali. Mas não, intensidade e leveza podem ocupar o mesmo espaço. Há mil formas de amar de maneiras saudáveis, e nenhuma delas diz que a intensidade da paixão deve ser deixada de lado, apenas que ela não deve cegar a visão de todo o resto. Da mesma forma que aprendemos a sentir prazer, também podemos aprender a nutrir nossas relações de maneiras significativas e sem pressa, sem dor, sem medo. Equilibrar as ações é importante para sabermos discutir de uma maneira respeitosa e também amar de uma maneira consciente.

Diferentes tipos de desejo e desencontros entre eles

Agora uma parte bem interessante. Sabia que existem dois principais tipos de desejos? E que eles podem flutuar ao longo da vida, de acordo com nossos momentos? Se não sabia, apresento agora o desejo responsivo e o desejo espontâneo. Esse sistema de resposta nos ajuda a entender melhor como nossa mente e nosso corpo funcionam. Também nos mostra que não estamos sós e nem errados por estar mais dentro de um modo ou de outro – ou flutuando entre os dois. O sistema dual ganhou popularidade com o livro A eevolução do prazer: como a ciência pode levar você ao orgasmo, da educadora sexual e pesquisadora Emily Nagoski, e tem sido repassado para que mais pessoas tenham acesso a essas informações tão preciosas. E o que é isso? O desejo espontâneo é exatamente aquele dos filmes, onde basta um olhar para que a excitação aconteça. No espontâneo, os pensamentos relacionados a sexo já estão mais engatilhados e são acionados com uma falicidade maior. Nele, não é necessária tanta estimulação ou contextos mais elaborados para que a vontade apareça. Porém, atenção: por mais que ele seja o mais retratado por aí, principalmente como uma característica pertencente à masculinidade, não é o que representa a maioria das pessoas (de qualquer gênero que seja)! O segundo tipo é o Desejo Responsivo, o mais comum (por mais que muitas pessoas erroneamente se achem “quebradas” por vivenciá-lo), é o desejo que precisa ser construído aos poucos, trazendo contexto certo e estímulos variados. Nesses casos, a pessoa talvez precise de mais esforço próprio e também da sua companhia para entrar no clima. Isso pode significar uma massagem não necessariamente erótica, assistir algo picante, ou qualquer outro estímulo físico/visual/verbal para que a excitação comece a dar as caras. Uma boa saída é separar de maneira consciente esse tempinho para focar no prazer em conjunto. E não existe modelo ideal ou melhor, viu? Os dois são válidos e precisam apenas serem reconhecidos para que a pessoa decida como lidar com cada um deles.

Se depois de olhar pra todos esses lugares, ainda houver a sensação de que falta algo entre o casal, pode ser a hora de buscar um acompanhamento através de terapia sexual ou repensar os modelos da relação. É normal duas pessoas não terem sua libido sempre sincronizadas, mais normal ainda que as coisas mudem com o tempo. Uma relação sem sexo pode significar a lacuna de algo muito mais profundo, que vai além da cama, mas que pode ser trabalhado e recuperado se for da vontade de ambas as partes. O que não pode faltar nunca é respeito e disposição pra fazer dar certo de uma maneira saudável, com vida sexual superativa ou não. E pra você, o que é mais importante numa relação?

Clariana Leal é educadora sexual e carrega como propósito a abertura honesta e inclusiva do diálogo sobre sexo, desejo e corpo. Ela é também sócia da primeira sex shop brasileira 100% focada no prazer feminino. Na sua coluna Prazer sem dúvidas, vai responder mensalmente as dúvidas do público da ELLE pelo Instagram e também aqui no site.