Ambições marginais

Liguei para Milena Nascimento, 23 anos, um dia depois de ela ter feito uma tatuagem de 20 cm no peito. Hoje, quem olha para a estilista paulistana lê a palavra “Marginal” logo de pronto. Poderia ser só mais uma das 24 tatuagens que ela tem pelo corpo, mas essa foi fruto de um desejo de três anos e um disparo identitário que Milena levará para a vida inteira. “É sobre registrar quem eu sou. Se é assim que a sociedade me enxerga, eu aceito”, diz. “Mas também aceito do meu jeito, entendendo o que é ser marginal, para além do que as pessoas impõem como criminalidade e vandalismo. Não tem outro lugar que deveria tatuar isso senão no peito, e é uma afronta muito grande, especialmente para uma mulher preta, periférica e funkeira.”

Criada no Grajauex, Milena ama toda a discografia do Criolo, especialmente o Espiral de ilusão (2017). Ouve de tudo, do rap ao pagode, do rock ao funk, mas confessa que o último é seu gênero predileto no momento. Ela começou a ir para os bailes funk com a motivação de pesquisa. Embora ainda não frequentasse tais eventos, ela tinha a premissa de que, dentro da periferia, a moda acontece ali. “É de onde saem as tendências e a população define quais marcas estão no hype, Lacoste, Mizuno, Nike etc.”, fala.


Foto: Vinicius Marques

Milena criou sua marca, a Mile Lab, em 2017 e, de pronto, entendeu que queria que seu negócio crescesse na periferia. Daí o interesse nos bailes. “Queria ver a Mile Lab dentro desses espaços”, revela. Em 2019, começou a marcar presença em dois bailes do Grajaú, Casa Roxa (Jardim Gaivotas) e Baile da Praça (Cantinho do Céu). Hoje, ela frequenta o Baile do Menzengas, Clube das Arábias, Baile do Helipa, Baile do Alpino e Baile do Bega, sendo os dois últimos seus favoritos. “Foram anos me preparando, buscando referências e no processo de entender o que queria desses espaços.”

Mais do que isso: os bailes foram a oportunidade de Milena se encontrar como pessoa, conhecer e estar em contato com outros artistas e produtores. “Foi muito engraçado porque comecei a ir nos bailes por causa do meu trabalho. Queria falar sobre eles, então precisava estar lá, viver o baile de fato. Só que acabei me encontrando ali. A ponto de começar a me ver de outra forma, me comunicar de uma jeito que me sinto mais forte e mais corajosa”, diz. “Passei boa parte da minha adolescência usando roupas largas, bermuda e camiseta grande. Ainda amo isso, mas também queria usar uma minissaia, um vestido mais justo e nunca me senti confiante para tanto. Nos bailes, vi que eu podia usar essas roupas e, independentemente da maldade dos outros, comecei a ter coragem de usar as roupas que crio. Eu me sinto mais livre.”

A vivência do funk transformou também como Milena enxerga o propósito da Mile Lab na moda. Hoje, a estilista deseja registrar a identidade das margens de forma legítima. “Demorei 23 anos para descobrir que o funk faz parte de quem eu sou, e isso se traduz nos meus processos criativos. Agora, consigo ter um equilíbrio entre minhas ideias de criação e o que a favela quer colocar no seu corpo, o que é um processo muito mais transparente e sincero comigo mesma e com quem acompanha minha arte.”

A marca ingressou na São Paulo Fashion Week em junho de 2021, como uma das integrantes do Projeto Sankofa, que visa a inserção de empreendimentos capitaneados por pessoas não brancas na semana de moda. O desfile de estreia, transmitido em vídeo, devido à pandemia de covid-19, foi com a coleção Baobá, uma homenagem a suas avós, que também são costureiras. Milena foi a única neta que seguiu o metiê. Enquanto a avó materna fazia bordados em vestidos de festa, o que a deixava costurando detalhes por semanas a fio, a paterna fazia as roupas do terreiro em que era mãe de santo.

“A costura é um legado para mim”, conta Milena. “Por isso, a gente fez a Baobá, para honrar essa história e nossa ancestralidade. Trouxemos muita referência do que minha avó costurava e boa parte da coleção foi feita da cortina do terreiro dela, para ter esse tecido como acervo e história. Baobá foi um abrir de caminhos para que a Fluxo Milenar (a segunda apresentação na SPFW, dessa vez presencial) fizesse o que precisava fazer.”

O processo criativo da Mile Lab parte da elaboração de uma poesia. Depois, entra uma pesquisa de público, a seleção de pessoas reais para inspirar a criação dos croquis e os primeiros desenhos técnicos. Só então é que a peça piloto começa a ser desenvolvida. Entre a Fluxo Milenar que Milena idealizou e o que foi para as passarelas, absolutamente tudo mudou. A estilista tinha o desenho técnico de uma coleção de quase 20 looks elaborados, com tecido escolhido e ficha técnica fechada.

Prestes a começar a produção, a conta para o básico — looks, campanha, vídeo de divulgação — deu 40 mil reais. “É um valor que nunca vi na minha conta. Ninguém que trabalha ou convive comigo já viu isso na conta”, diz. “A gente fez o possível para buscar apoio, patrocínio, mas não teve ninguém que realmente abraçou a ideia.”

Milena tinha parado de costurar — sua única fonte de renda — para mergulhar no processo criativo da coleção e, de súbito, não tinha como realizá-la. Ela sabia que precisava terceirizar o trabalho de costura, ampliar a marca, mas para isso é preciso dinheiro. É um paradoxo, do tamanho de 40 mil reais. Sem investimento, Milena escreveu um e-mail para o Projeto Sankofa, dizendo que a Mile Lab não poderia se apresentar porque não tinha suporte. “Tudo já estava pronto, já tínhamos passado por todo desenvolvimento, croquis, desenhos técnicos e narrativa. Mas como você tira uma ideia do papel se não tem como custear material e mão de obra?”, indaga. Segundo a estilista, a resposta ao seu e-mail foi negativa.

“Foi justamente a raiva de não ter esse suporte e acolhimento dentro da SPFW que me moveu”, desabafa. “Faltando quase duas semanas para o desfile, decidi fazer a coleção com o que a gente tinha. A Cinthia Felix me ajudou, foi comprar tecido comigo, e decidi fazer o básico: tops, porque são mais fáceis de costurar, saias, algumas coisas já estavam prontas e fiz milagre com nada. Por mais que não tenha sido um terço do que tinha desenhado, são roupas confortáveis, tem olhar de baile, é uma roupa para trampar, para ir para uma festa. E essa reação era parte do que eu queria: voltar a fazer roupa para estar na rua. A Mile Lab cresceu na rua e tem que estar na rua.”

Durante a apresentação, Milena usou o espaço da passarela para incendiar um atravessamento de classe no discurso de inclusão e diversidade em semanas de moda. “De que adianta abrir as portas desses espaços quando, mesmo com todo o dinheiro e recurso, você prefere não garantir a permanência dos corpos pretos, periféricos e marginalizados? Hoje, camisetas amarradas no rosto são um escudo para se proteger do que eles mais querem: usurpar quem somos.” Segundo Milena, o único suporte que a Mile Lab recebeu foi no dia do desfile, com a estrutura e o apoio dos profissionais do evento. Historicamente, o auxílio financeiro oferecido pela SPFW a marcas do evento é assunto tabu para organizadores e participantes, quase sempre protegido e velado por acordos jurídicos e/ou de interesse. A reportagem entrou em contato com os responsáveis pelo Projeto Sankofa, mas não obteve resposta até o fechamento da edição.


Foto: Vinicius Marques

Ao longo da nossa conversa, de quase uma hora, a palavra que Milena mais repetiu foi registro. “Registrar a identidade marginal por meio da moda, colocar a gente no mapa de um mercado que sempre tentou nos tirar dos movimentos culturais é importante. Mas me questionei e vi que tem uma romantização sobre o glamour que é a SPFW. Para uma marca pequena, periférica, tem um peso imenso participar da semana de moda, é quase como ganhar uma medalha de legitimação pelo o que você está fazendo. Mas hoje percebo que ninguém precisa da SPFW para ter sua marca legitimada. Particularmente, tenho visto esse lugar como um palco, mais do que uma passarela em si.”

A presença e a saída da Mile Lab da semana de moda (a última edição foi a última participação da etiqueta) ecoam a passagem de outras marcas, também periféricas, que tiveram um impacto nas passarelas e ganharam relevância na mídia com mensagens incisivas, mas que também decidiram investir em outros espaços, como a Lab Fantasma.

Ainda que a Mile Lab tenha proposto um debate sobre apoio financeiro às marcas e a Lab Fantasma tenha levantado uma discussão prática sobre representatividade, nas passarelas e no backstage, ambas as etiquetas utilizaram a visibilidade do evento para apontar seu caráter e seus problemas estruturais.

Hoje, a grife de Milena assume como objetivo a construção de um laboratório criativo no Grajaú, com ateliê, sala para audiovisual, sala de modelagem e ilha de edição. “A ideia é ter todos esses espaços que uma marca necessita em um lugar só — mas não só para fazer o corre da Mile Lab, mas, para que cada ambiente seja uma sala de aula, onde a gente consiga ministrar cursos e abrir, de fato, esse lugar criativo para que as pessoas possam explorar, aprender sobre música, sobre audiovisual, sobre todas as questões artísticas que envolvem nossa vida.”

Milena quer criar um espaço em que as pessoas do Grajaú possam reconhecer o território em que estão e usar suas vivências marginais como combustível artístico, sem a necessidade de apoio ou validação de quaisquer semanas de moda. A etiqueta quer sonhar coletivo, portanto sonhar grande. “Nosso objetivo é colocar a identidade marginal no mapa, registrar para que ninguém possa apagar ou silenciar quem somos”, diz. “Receber mensagem do Acre, Bahia, Rondônia e Goiânia, com gente se reconhecendo no que a gente faz, isso é conquista. É o começo do sucesso que a gente quer.”