Amor novo, namorado nem tanto

“Homens mais velhos só querem mulheres novinhas.” Crescemos escutando isso. Uma viúva ou separada ou simplesmente solteira com mais de 50 anos estava fadada à solidão. Eram senhoras de idade, de chemisier e sapato de saltinho, que depois dos filhos criados ficavam sem função. E nós, que agora somos essas senhoras, estamos de roupa de ginástica, tênis nos pés e muito pra fazer. A vida ficou maior. Cabe mais coisa nela: projeto de trabalho, mudança de carreira, amigos, netinhos e um namorado, por que não?

Vivemos mais, temos mais tempo para encontrar novas alegrias. Há espaço bastante para boas histórias de amor. Porque nem todo cara legal já está casado. Tem gente bacana por aí. Agora, atenção: o namorado não cai do céu nem a relação vem pronta. Estamos mais experientes e seguras, mas somos pioneiras nesse terreno. Temos muito o que aprender ­– e isso é parte da graça de viver um novo amor nessa altura do tango. Não é simples. Uma relação de amor nunca é simples. Mas é possível.

O primeiro crush

Algumas mulheres mais velhas têm preconceito com aplicativos de relacionamento. Acham desonroso precisar de ajuda para encontrar um par. Só que não é. Muitos casais nessa faixa etária têm se encontrado na telinha. Rola até casamento.

Quando deu “match” no aplicativo, Lu (a entrevistada pediu à reportagem para não ser identificada) ficou animada. Conferiu a foto, viu a idade: 63. “Minha idade”, pensou. Leu o perfil, gostou e foi lá. Era a primeira vez que se arvorava sozinha no App. Ficou com medo de dar um clique errado, então sugeriu que se falassem por WhatsApp. Ele topou e perguntou se podia ser com a câmera ligada. Ela respirou fundo, deu uma olhada no espelho e disse sim. Foi o começo de um namoro que já dura três anos.

O gostoso desse encontro na maturidade é não ser mais aquela paixão juvenil, marcada por sobressaltos. Não vem com a aflição de ter que construir uma família, de viver um turbilhão de sentimentos conflitantes, de ainda precisar se colocar profissionalmente. “São dois adultos que já passaram por isso tudo, que reconhecem e aceitam o espaço do outro, a história do outro. Cada um tem a sua casa. Cada um tem a sua família. Cada um cuida do seu pedaço. E isso faz toda a diferença. Fica mais leve a relação”, diz Lu.

Mas há percalços. Quando se é mais velho, o passado é enorme. Cada um traz um vagão lotado de histórias de vida. Onde colocar essa nova, que começa a ser construída agora? Anita, que também quis se manter no anonimato, de 68 anos, há seis vivendo um namoro maduro, busca os pequenos espaços vazios dentro do outro para plantar as sementes dessa nova história. Um lugar só dos dois, sem o ranço do passado, sem o ranço dos outros relacionamentos. “Um espaço só nosso, juntos. Um terreno baldio onde podemos construir o nosso caminho.”

Todo ano eles se perguntam: renovamos a assinatura da Sala São Paulo? É assim que contam o tempo. Mais um ano. E seguem, nesses espaços vazios que vão sitiando juntos.

Assim como Lu e Anita, todas as entrevistadas, sem exceção, pediram para não ter o nome publicado. E foram unânimes em alegar não quererem se expor nem expor o parceiro. Outra diferença em relação à geração em que a selfie dos namorados nas redes sociais acontece quase junto com o primeiro beijo: a privacidade, realmente, é um dos territórios mais preciosos e protegidos pelos novos casais mais velhos.

E o sexo, hein?

Esse costuma ser o foco da mídia quando o assunto é relacionamento amoroso entre os mais velhos. E aparece acompanhado de máximas. Porém libido, vagina ressecada e orgasmo, entre outros itens relativos a desempenho sexual, têm importância variável entra as pessoas. Há mulheres que não ligam para a vida sexual, dão mais importância ao companheirismo, ao caminhar de mãos dadas. Para outras, é impossível viver sem. É o caso de Laura, que só teve certeza absoluta de que estava apaixonada pelo gato bonitão estrangeiro que conheceu no aplicativo depois que transou com ele.

Com a idade, você imagina que o sexo não vai ser a tônica da relação. Para muitas mulheres não é, mesmo. Não que abram mão dele, mas não sentem aquela necessidade física de transar todo dia. E está tudo certo. Assim como está tudo certo com as mais fogosas, mulheres mais sinestésicas, que precisam desse encontro de corpos, dessa dança íntima, precisam tocar para sentir. “Eu me sinto mais viva, mais energizada”, diz ela.

Laura atravessou o Atlântico para se certificar de que tinha encontrado o seu par em todos os sentidos. A cabeça dele, ela já conhecia dos dois anos de pandemia, via contatos virtuais. Faltava o resto. “Logo no primeiro beijo, vi que estava perdida. Quando transamos, tive certeza”, conta rindo. Para ela, o sexo sempre foi muito importante e se guardar por dois anos foi uma bela prova de amor.

Para quem, nos últimos 15 anos, nunca ficou sem namorado, escutar que não tem homem na pista não faz sentido. Dora não sabe dizer quantos foram. Mas nenhum durou menos de dois, três anos. “Não fico numa relação que não está boa, eu termino. Também já terminaram comigo. Fico triste um tempo e parto para outra. Tenho uma alma jovem, adoro transar, adoro a vida. Sou orgulhosa da minha idade. Tenho 65 anos e estou numa fase muito feliz. Eu me cuido, faço ginástica, trabalho com gente interessante, viajo muito. E tenho um namorado bacana do meu lado há dois anos. Isso mantém a minha libido em dia.”

Mas essa fartura de amores não rola para todas as mulheres. Há um batalhão de cinquentonas e sessentonas que dizem ter desistido dessa dimensão da vida. Algumas alegam preguiça de investir numa nova história, outras dizem que é falta de opção e nem lembram mais o que é tesão.

Dora tem uma teoria: entocada em casa, nada de legal pode acontecer. Tem que sair pra encontrar alguém. Sair pra dançar, ir ao cinema, almoçar fora, viajar. “Não pode pretender encontrar o homem da vida logo de cara. Tem que se divertir. Esse é o barato de namorar mais velha. A expectativa é diferente, é relax. Não tem aquele peso de quando você é jovem e quer casar. É muito mais divertido. Às vezes, você reencontra uma pessoa que não via há séculos e a coisa bate diferente. Foi o que aconteceu comigo. Tem que ter espírito esportivo. Dar uma chance ao acaso.”

Delivery de coroa

O príncipe encantado não vai bater na sua porta. A gente cansa de ouvir e de repetir isso. Mas bateu na casa da Nina e para pedir uma abridor de vinho. “Não era um príncipe, era um rei porque já somos mais velhos! Só sei que moro há mais de 30 anos nesse prédio e nunca vi um único morador bonito. E, de repente, esse coroa lindo é meu vizinho e aparece na minha frente.” Bicicletas juntinhas na garagem, corrida no parque, mesmo gosto para série, enfim. Como nunca se casou, Nina adotou a família dele. “O que eu não sabia é que, no mesmo pacote de filhas e netos fofinhos, estava a ex-mulher!”

Quando somos jovens, temos uma sogra na nossa nuca. Mais velhas, podemos ter a ex-mulher do parceiro. Esses balangandãs de outras vidas, digamos assim, fazem parte do namoro maduro. E requerem muita diplomacia. A ex que que não larga do pé, que é tão boa e simpática que muda a decoração da casa dele, que se convida para almoçar junto com os filhos no fim de semana do pai. Que faz o bolo de aniversário dele! E, o pior, ex é eterna. Nunca se perde esse cargo.

Nina evita bater de frente. “Até porque ela é uma pessoa ok”, diz, rindo. “Nada contra, apenas não precisava ser tão presente. Já conversamos sobre isso, mas esse problema é dele.” Aliás, conversar sobre perrengues do relacionamento, a famosa DR (discutir a relação), nessa altura da vida muda de patamar, perde em status. A estratégia até é acionada, mas DR de coroa é mais objetiva, sem lenga-lenga. Nina prossegue sua história: “Gosto de jogar baralho e tenho um grupo da jogatina uma vez por semana. Ele detesta jogar. Sente ciúme da minha turma. Então, tem cara feia para os dois lados. Ficamos empatados. Acho que é a vida. Mesmo morando colados, passamos dois, três dias por semana sem nos ver. Ele viaja muito. Eu fico com saudade e até esqueço a ex. É saudável ter esses intervalos.”

Já o dilema casar ou não casar não é uma questão. Nossas entrevistadas respondem que está ótimo assim, cada um na sua casa. Contudo, no decorrer da conversa, pensam melhor e ponderam: não já, mas lá na frente, quem sabe, pode ser. Nina, que nunca se casou, não acha a ideia ruim de todo. “Não penso nisso, mas estou aberta. A vida é quem manda.”

Brilhe com ou sem o outro

Ter um bom relacionamento amoroso pode ser difícil em qualquer idade. E certamente, quanto mais velhas ficamos, mais difícil encontrar um par. Não porque os bons partidos estejam todos tomados, mas porque criamos muitas expectativas. Às vezes, não nos sentimos inteiras sem um outro ao lado. Então esperamos o salvador, aquele que vai preencher esse vácuo, essa falta enorme. E queremos que essa pessoa supra as nossas carências completamente.

“Um relacionamento tem que caber no resto da nossa vida. Ele não pode ser a nossa vida”, explica a psicanalista Sylvia Loeb. “Se você só se focar na busca de um namorado, o mundo fica muito pequeno. É importante se abrir para novos interesses. Buscar um novo curso, se engajar num projeto. A vida é tão rica. Se você estiver nutrida, num relacionamento amoroso com você mesma, certamente se sentirá apta a fazer boas escolhas. Certamente atrairá novos olhares.” E, se o outro se interessar pela sua luz, que seja bem-vindo. Se não, brilhe assim mesmo.