De frente com o espelho

“Foram 25 anos pra eu me achar lindo/ Sempre tive o mesmo rosto/ A moda que mudou de gosto”, canta Baco Exu do Blues, 26 anos, em “Autoestima”, faixa de Quantas vezes você já foi amado? Lançado em janeiro, seu terceiro álbum chegou à quinta posição da lista global da Spotify dos discos mais ouvidos.

Em QVVJFA, o rapper soteropolitano discorre sobre temas como amor-próprio, saúde mental, masculinidades e negritude. “Belezas são coisas acesas por dentro”, canta em “Lágrimas”, “ter autoestima sendo como eu se tornou pecado”, em “Sinto tanta raiva” e “ser submisso, servir, não combina comigo/ calma, respira/ por que me olha com ódio se eu sou tão lindo?”, em “Inimigos”.

Além das letras, Baco, ou Diogo Moncorvo, também tem chamado a atenção por suas selfies, replicadas com elogios por endereços como Buzzfeed e Hugo Gloss. Recentemente, o rapper mudou seus hábitos por questões de saúde – passou a fazer exercício todos os dias – e sua relação com a carreira. “Hoje me enxergo como um ser humano que tem um trabalho, e não como um indivíduo que é apenas trabalho”, diz.

Em entrevista à ELLE, Baco falou sobre autoestima, racismo, autocuidado, se mostrando para além das rimas e das selfies.

No disco, você canta: “Eu tô tentando achar a autoestima que roubaram de mim”. Como tem sido esse processo?
Tem sido bem doido. Primeiro porque é revelador você se olhar com seus próprios olhos e a partir dos alheios também. Acabei caindo numa transição muito grande. Mas o que veio antes desse processo foi a decisão de eu parar e cuidar da minha saúde. Acho que esse foi o momento em que parei pra me enxergar, de fato, percebendo que as coisas não estavam bem. E precisei mudar, no sentido de me ver como indivíduo, em vez de uma máquina de trabalho, sabe? Eu pensava: “Não posso parar de trabalhar de jeito nenhum. Minha vida é trabalho”. Não que trabalho também não seja minha vida, mas hoje me enxergo como um ser humano que tem um trabalho, e não um indivíduo que é apenas trabalho. Senti também o quanto incomoda quando uma pessoa negra começa a se entender, se achar, se valorizar e excluir a opinião alheia. Gosto de como sou, me acho inteligente, bonito, dedicado, me acho suficiente pra tudo que eu tô querendo fazer no momento. O quanto isso incomoda as pessoas é uma parada meio assustadora para mim e acho que não estava tão preparado pra isso.


Foto: Roncca

Como foi essa virada em que você começou a se cuidar?
Cara, fui ao médico e eu estava correndo sérios riscos – obesidade mórbida, pressão… Comecei a ter problemas que beiravam a diabetes. O médico foi muito sincero comigo, falou que eu o havia procurado no momento certo, que era sério, mas que ainda tinha volta. Essa volta seria pesada, exigiria dedicação. Não era uma questão estética, mas de saúde e bem-estar. E aí eu falei: “Opa! Tenho que dar um jeito”.

Em outro trecho de “Autoestima”, você canta: “Foram 25 anos pra eu me achar lindo/ Sempre tive o mesmo rosto/ A moda que mudou de gosto”. Esse trecho viralizou nas redes sociais. Por que você acredita que tantas pessoas se conectaram com ele?
Acho que elas se conectam porque passamos pelas mesmas coisas, e é sobre isso! Como falei antes, quando a gente acha a nossa autoestima, a gente vira um incômodo. E é um incômodo muito complicado porque é tanto dos nossos (pessoas negras) quanto dos outros. Acho que bate muito nesse processo de se libertar do olhar alheio. Acredito também que exista toda uma construção social pra gente não se sentir nesse lugar “ideal”, de se ver bonito, inteligente, capaz. É uma cegueira coletiva muito grande.

Alguns veículos de comunicação têm falado sobre sua beleza e como você se tornou referência em autocuidado. Como você se sente?
Tento enxergar de duas formas: a primeira, mais positiva, e a segunda, um pouco mais negativa. Penso que pela primeira vez na minha vida, eu tô me importando com o artista, tô botando meu rosto nos lugares, tô me comunicando com as pessoas, tô falando. Por muito tempo, fui um cara muito romântico com a arte, no sentido de que ela vem primeiro e apenas ela vai se sustentar. Não trabalhava muito clipe, redes sociais, não tinha nem Twitter. E era isto: “Estou trabalhando aqui e tudo bem. Foco no meu trabalho e pronto”. Acho que já vi aonde minha arte chega sozinha. Agora, quero saber aonde eu posso chegar como Baco Exu do Blues também, como criador dessa arte. E o outro ponto que penso é: será que as pessoas estão olhando para mim pelo fato de essa transformação ter acontecido ou pelo fato de eu estar aparecendo mais? Acho que corriqueiramente várias pessoas brancas fazem esse tipo de exposição. Tipo tal ator aparece nu, está aparecendo muito sem camisa ou tirando muita foto. E não é pauta, tá ligado? Não vejo isso acontecer.


Foto: Roncca

Você parece bem tímido. Como descreve sua personalidade?
Tem o Diogo e tem o Baco Exu do Blues. O Baco é uma liderança que, mesmo na fraqueza, tem que ser forte. E eu (Diogo) gosto de ficar na minha, quieto, aproveitar os momentos que tenho pra ficar tranquilo. Demanda muita energia ser essa figura que afronta todos esses aspectos religiosos e causas sociais.

Os homens negros foram e são estereotipados e sexualizados. Você enxerga o seu trabalho como um importante ativo na construção desses novos imaginários?
Acho que sou a pior pessoa para conseguir definir a dimensão do meu próprio trampo. Quando fiz o disco, foi extremamente pessoal. Eu estava, de fato, expondo as minhas fraquezas. Tenho descoberto cada vez mais que bate num lugar pessoal de outras pessoas também. O disco não tem a pretensão de ser uma coisa extremamente comunitária. É realmente bastante pessoal. Coloquei o meu pessoal de uma forma tão minha que acabou sendo nossa, coletiva.