Hello, millennials: velhice precoce tem salvação

Uma bonequinha graciosa e divertida, Adênia Chloe, desestruturou o imaginário da atual geração de trintões e trintonas de que eram “xovens”. “Eu tinha consciência de não ter mais 20 anos, mas foi ali que percebi claramente esse hiato geracional. Vi que minhas referências não eram as mesmas de quem é jovem hoje”, conta a servidora pública Patrícia Ribeiro*, 33 anos, que levou um choque quando se deparou com o
meme em que Adênia, a personagem conhecida como a “moça do marketing” da marca Aff The Hype, chora ao ser confrontada com sua condição de millennial.

O meme que viralizou caiu no gosto do público em junho de 2021 e impacta loucamente até hoje, ao alimentar uma suposta rivalidade entre os jovens integrantes da geração Z (na casa dos 20 anos) e os não tão jovens assim millennials (mais próximos dos 30).

A chama já havia começado quando os novinhos resolveram criticar hábitos e preferências dos trintões nas redes sociais. Tudo o que envolve pagamento de boleto, mania de tomar café, gosto por calças skinny, por sapatilhas de bico arredondado e pelo seriado de TV
Friends foi batizado de cringe, ou seja, fora de moda e ultrapassado, totalmente “vergonha alheia”.

Mas o dilema entre ser ou não ser cringe é apenas a ponta de um iceberg que esconde um fenômeno bem mais representativo do nosso tempo: o incrível caso das pessoas que, ao redor dos 30 anos, estão se achando velhas demais para mudar os rumos do trabalho, realizar sonhos ou se divertir.

Não há mais tempo…

A insegurança em relação à profissão e a desagradável sensação de que muito provavelmente é tarde demais para buscar um novo caminho assombram Patrícia. Formada em comunicação, ela optou por prestar um concurso público em outra área em busca de estabilidade. “Hoje, gostaria de mudar de profissão, mas depois dos 30 bate o medo: será que já não está tarde para tentar algo novo? Fazer uma nova faculdade não seria regredir?”, questiona.

Segundo a psicóloga Ceres Araújo, doutora em distúrbios da comunicação humana pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e professora do Programa de Pós-Graduação da PUC-SP, uma das principais dificuldades da geração millennial, caracterizada pelas pessoas nascidas entre 1981 e 1996, é justamente a adequação às imposições do mercado de trabalho, que nem sempre batem com as expectativas de quem sonhou em trabalhar somente com o que gosta ou fazer a diferença no mundo.

“Os millennials são conhecidos como a geração que não deu certo na escola, na faculdade e no trabalho. Por serem nativos digitais e terem mais facilidade de lidar com a tecnologia do que as gerações anteriores, esses jovens foram endeusados e superidealizados por seus pais”, explica.

Baixa tolerância à frustração e dificuldade em lidar com chefes, prazos e obrigações nem sempre agradáveis seriam alguns dos efeitos colaterais desse estilo de criação que entendeu a importância de valorizar a autoestima – mas que talvez tenha exagerado na dose em alguns momentos. “Estudar demanda esforço. O trabalho nem sempre é divertido e prazeroso. Essa é a geração que busca o prazer imediato em tudo. Eles estão se sentindo velhos, pois não deram certo”, aponta Ceres.

Não só eles, mas, convenhamos, o mundo ao redor parece não ter dado muito certo. Tomando como exemplo o cenário local: millennials passaram a infância e a adolescência vivendo em um país em plena recuperação econômica, cercados por um clima de euforia e grandes expectativas para seus ilimitados potenciais. Na hora de entrar no mercado de trabalho, a coisa começou a degringolar e, a partir daí, foi só ladeira abaixo: inflação crescente, desmonte de garantias trabalhistas, desemprego em alta, retrocessos políticos e, a cereja do bolo, uma pandemia que já dura mais de dois anos.

O raciocínio de Patrícia mostra que sua geração comprou gato por lebre: “Idealizei uma independência financeira e pago as minhas contas, mas não faço o que gosto. Talvez essa tenha sido uma fantasia vendida para a minha geração, a de que é possível viver fazendo o que se gosta. Tivemos muitas opções, nos disseram para fazer o que quiséssemos, mas isso não é verdade”, reflete.

Mercadão de ilusões

Para a psicanalista Maria Homem, pesquisadora do Núcleo Diversitas, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e professora da Fundação Armando Álvares Penteado, a venda de um ideal irreal de juventude está na base do sofrimento de quem se sente velho antes do tempo. “Na nossa cultura, a juventude é um grande fetiche. Trabalhamos com a ideia de que tudo o que é novo é bom e vem substituir o que é antigo e, consequentemente, ruim. É preciso desconstruir essa estrutura simplista e primária, questionar o que de bom queremos manter e o que é necessário transformar”, problematiza.

“A narrativa da sociedade de consumo é de que a juventude é um produto, uma fase caracterizada por liberdade, viagens, festas, bebidas, roupas, cores. E a indústria do luxo se mimetiza ao ponto de fazer com que esses bens estejam acessíveis, de alguma forma, a todos”, reforça Maria Homem.

De fato, se encaramos a fase adulta como a morte de uma existência incrível, cheia de potencialidades, diversão desenfreada e prazer sem limites, crescer só pode ser mesmo muito chato.

“Precisamos questionar esse imaginário do usufruto histérico da vida, desmontar esse ideal bipolar para viver sem tanta euforia e sem tanta frustração.”
Maria Homem, psicanalista

Maria Homem, psicanalistaA angústia de não se sentir mais jovem sem realmente deixar de sê-lo é difícil de ser explicada. A analista de texto e designer instrucional Júlia Medina, 27 anos, define seu sentimento como subjetivo, algo que parte da percepção de que as pessoas que antes pareciam ser bem mais novas agora são adultas.

“Meu irmão mais novo, que outro dia era uma criança, tem 21 anos e está na faculdade. Pessoas de 12 anos interagem sobre qualquer assunto na internet. Eu estava acostumada a ser a pessoa mais jovem dos grupos que frequentava, a mais jovem a fazer determinada coisa. Hoje, sigo fazendo o que fazia antes, mas sem ocupar mais esse espaço”, explica.

O meme que abalou Patrícia ao chamar suas referências de obsoletas também calou fundo em Júlia. “Eu me identifiquei muito com o vídeo. Fiquei superfã de K-Pop. Fã, mesmo, de acompanhar, sofrer junto. Por um lado, é uma coisa que rejuvenesce, mas tem o lance da vergonha social, de ter mais de 25 anos e ainda gostar.”

Enganação ideológica

Maria Homem acredita que o primeiro passo para sair da armadilha de envelhecer antes do tempo é questionar a utopia hedonista que reduz a infância e a juventude a fases em que tudo é divertido e permitido. “Precisamos questionar esse imaginário do usufruto histérico da vida, desmontar esse ideal bipolar para viver sem tanta euforia e sem tanta frustração. Desmontar essa enganação ideológica é necessário para colocar em perspectiva o que é realmente a vida. Afinal, somos capazes de criar e amar, de acordo com as nossas possibilidades, em qualquer idade”, defende.

A escritora e psicanalista millennial Gabriela Ruggiero Nor, 36 anos, concorda com Maria Homem. Para ela, o famigerado meme trouxe, antes de qualquer coisa, o estranhamento de fazê-la sentir que os jovens de hoje devem achá-la velha, da mesma forma como, anos atrás, ela via seus pais ou tios. Mas isso pouco importa para ela.

“Eu gosto de estar velha. Há certo espanto em perceber que os jovens consomem coisas ou usam tecnologias que eu não consumo ou não uso. Mas tento ficar bem nesse lugar. Muitas pessoas da minha geração têm um fetiche em prolongar a juventude. Eu não me identifico com o lema ‘forever young’. Quero entender esse lugar em que estou”, declara, convicta.

E qual a salvação para quem está desencantado ou desesperado pela velhice aos 30 anos de idade? Para Ceres Araújo, a crise em que se encontram nossos provectos millennials pode ser positiva: “Essa geração está precisando se reinventar. Pode ser uma boa oportunidade de aprender a lidar com as frustrações”.

*Nome alterado a pedido da entrevistada.