Tingir ou não tingir os brancos?

O reboot de
Sex and the city não foi unanimidade. Houve gente que adorou rever as queridas personagens dos anos 1990 e 2000 e também quem achou o roteiro da série And just like that forçado, pouco crível. Independentemente de qual lado você está nesse debate, não dá para negar que a volta dessas atrizes às telinhas gerou conversas importantes sobre o envelhecimento feminino e o que ele acarreta na maneira como as mulheres são percebidas socialmente. E, um dos temas mais quentes trazidos pela temporada extra de Charlotte, Carrie e Miranda, na HBO, foi o dos grisalhos. Cada uma parece representar uma atitude em relação à aceitação dos fios brancos. Enquanto Miranda assumiu o novo look de peito aberto, Charlotte nem cogita a possibilidade de abandonar o preto total das madeixas. A protagonista, como sempre, fica entre os dois opostos – a balayage de Sarah Jessica Parker, na trama, funciona como forma de disfarçar o acinzentado.

Se hoje o trio está refletindo sobre a possibilidade de revelar ou esconder o grisalho é porque caminhamos um longo percurso até aqui. Não muito tempo atrás, a mulher que assumia o branco era considerada, na melhor das hipóteses, uma desleixada. Ainda que isso tenha mudado – vide celebridades como Glenn Close, Jodie Foster, Angela Bassett e Diane Keaton, que, nos últimos anos, quebraram paradigmas ao fazerem aparições públicas com os cabelos livres de tintura –, ainda estamos longe de um cenário de liberdade absoluta.

Quem opta por liberar os brancos precisa se preparar para enfrentar o preconceito. “Infelizmente, na nossa sociedade, as mulheres continuam sendo muito julgadas por sua aparência. O cabelo branco, ainda que muito bem cuidado, continua sendo um signo de envelhecimento. E, em uma cultura que tem horror em abandonar a juventude, isso pode ser lido de maneira negativa”, afirma a consultora de imagem e estilo Miriam Lima, representante da Fipi (Federação Internacional dos Profissionais da Imagem) em Minas Gerais.


Sarah Jessica Parker e Cynthia Nixon em “And just like that”.Divulgação

No entanto, o período do isolamento social – imposto pela pandemia da Covid-19 – levou muitas mulheres a mudarem sua percepção a respeito dos fios brancos. Sem a possibilidade de ir ao salão, muitas aproveitaram a oportunidade para descobrir a cor natural de seus cabelos e abandonaram de vez a tinta. A volta ao trabalho presencial, porém, representará uma nova batalha para essas mulheres, acredita Miriam. “Nos ambientes corporativos, de modo geral ainda dominados pelo masculino, a mulher que tem mais de 40 anos já é vista como ‘velha’. Voltar para o trabalho de cabelo branco e se manter como uma figura forte nesse contexto não é tarefa fácil.”

Considerando esses fatores, preparamos um guia para quem deseja seguir a trajetória rumo aos cabelos naturais com todo o capricho. Entenda tudo o que envolve esse processo e escolha o caminho que mais se encaixa na sua vida, na sua rotina, no seu espelho e no seu coração. Afinal, não vamos sair da ditadura da tinta para a ditadura do cabelo branco. Somos livres para escolher hoje e mudar de ideia depois.

A biologia

Por que os nossos cabelos embranquecem com o tempo? “O bulbo capilar produz melanina durante a fase de crescimento do cabelo. Mas, com o passar dos anos, há uma diminuição dessa atividade no organismo”, descreve a dermatologista Fernanda Porphirio. O branqueamento dos fios, portanto, é algo absolutamente natural e esperado. Claro que esse processo pode ser acelerado por determinados fatores. Tabagismo, estresse, contato com a radiação ultravioleta e poluição são alguns deles. “Há ainda estudos que relacionam uma causa direta entre dietas pobres de vitamina B12, biotina, cobre, zinco, selênio e ferro e o surgimento dos grisalhos”, acrescenta a dermatologista Valéria Campos.

Para além da cor, vale destacar que o fio despigmentado tem outras características que o distinguem da sua versão rica em melanina. “De modo geral, esses fios são mais grossos, ásperos e difíceis de serem controlados. São também mais suscetíveis aos danos causados pelos agressores externos. Crescem mais rápido e têm menos aderência aos corantes e às tinturas”, continua Valéria. Além disso, é importante lembrar das suas cutículas, que são mais finas. “Isso significa que o fio é mais poroso e, portanto, retém menos água e umidade – o que facilita o ressecamento”, completa Fernanda.

A transição

O cabelo não fica completamente grisalho do dia para a noite. Passa pelo chamado período de transição, por sinal uma etapa complicada, que assusta muita gente interessada em encarar o processo. Por isso, para o hair stylist Rodolfo Iglesias, de São Paulo, é uma boa ideia começar com uma descoloração leve (à la Carrie Bradshaw, em
And just like that). “É um jeito delicado de passar por esse processo sem abrir mão de um visual autêntico”, sugere. Já quem tem a coragem e está a fim de uma mudança mais radical, pode agilizar, retirando todos os resíduos de coloração e apostando em um bom corte para eliminar o máximo possível do cabelo antigo. “Os curtinhos como pixie e chanel com mais camadas são boas opções, porque ajudam a gente a se livrar dessa química preexistente”, diz Natan Correia, embaixador da Schwarzkopf Professional.

No dia a dia

Mais do que tratar, é preciso prevenir: como o cabelo branco é mais seco e tende a uma fragilidade maior, a indicação dos especialistas é não abrir mão de um leave-in com FPS durante qualquer exposição ao sol e um protetor térmico antes de ferramentas como secador, chapinha e bebyliss. “É preciso entender que, para alcançar um acabamento mais refinado, o cabelo branco exige certo esforço. Vai embora aquela obrigatoriedade de retocar a raiz no salão, mas isso não quer dizer que você não vai mais precisar de tratamento nenhum”, pondera Celso Kamura, do C. Kamura, em São Paulo.

Um exemplo de problema novo para quem libertou o grisalho é o chamado amarelamento. Como são mais sensíveis à radiação e à oxidação, os fios brancos tendem a adquirir nuances desse tom. Por isso, o truque é usar uma vez por semana um xampu (ou uma linha completa) com pigmento violeta. Além disso, vale a pena ficar atenta ao item brilho das madeixas: “Hoje em dia, temos tonalizantes e colorações premium translúcidas que não cobrem totalmente, mas dão um efeito maravilhoso no grisalho”, aponta Kamura. “É daí que vem aquele aspecto de branco saudável.”

No mais, aposte em produtos específicos para o grisalho. “São aqueles que oferecem força, elasticidade, volume e brilho”, indica Natan. Uma boa máscara de tratamento (vale alternar entre hidratação e nutrição) também vem a calhar. Segundo os experts, invista no ritual ao menos uma vez por semana e não desacredite do poder dos óleos e dos silicones: eles ajudam a umidade a não escapar da fibra capilar.

Uma questão de estilo

Truques de styling são os maiores aliados para deixar um look moderno e desconstruído. “Para isso, indico o uso de uma boa pomada finalizadora, capaz de valorizar o corte”, diz Rodolfo. “Manter o corte em dia também ajuda muito a manter o branco com ares cool”, completa Kamura. Assim, prepare a bancada para receber itens desamareladores, nutritivos e impulsionadores do brilho! Confira a seleção abaixo!